A Branda Polpa

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O sol estrangulava as pobres brisas na prisão de luz e grau, e depois do almoço, entre silêncios e suores, as cigarras nadavam no ar, um torpor abatido, sufocado, cena muda de calor e tédio. Apenas as figueiras, fábrica e rio adocicavam seus frutos, uma encarnação de flor e suco, o aperto, a profunda urna. Quando o verão amadurecia, lá em casa, era época de fazer figada. Encomendava-se ao freguês da carroça alguma coisa do mercado, presentes de vizinhança. Na cozinha se depositavam as bacias cheias de figo, vermelho ventre, os pingos de ouro cintilando. Os frutos eram despidos, mãos e facas trabalham ríspidas e sérias, expondo a intimidade, estiolando a carne. Não era só: a forma se degradava em massa, submissa à pressão e força, os figos finalmente reduzidos, algum açúcar, pouco, proporcional ao gosto e tipo. No pátio aguentavam-se as aras para o holocausto. Comprados em algum cigano, cobre puro, os areados tachos aguardavam a delicada presa. Um fogo de gravetos e lenha, as faces rubras, e no vaso de metal se lançavam almas e caules. Durante horas em revezamento célere, os braços moviam pás, as madeiras mergulhadas em mucosas e sumos, círculos de mel e gosto. Depois, quando não se soltava mais, ainda quente, a transmigrada essência era desejada em lata de manteiga, de vez em quando um pouco de sol para formar película e casca. Nos armários forrados com jornais, o tique-taque no relógio antigo assistia a lenta maturação de carga e tempo, os sabores em prumo. Quando os filhos iam para os internatos, no meio de roupas e livros, a viandante escusa ia pronta para a breve gula. E durante meses, em escondido afeto, a vegetal caça aguardava servil que os dedos trêmulos a recrutassem. No refeitório e pão, colheres ávidas violavam a iguaria. E tinha de ser no inverno, fim de outono, frios e lãs.

 

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