A Casa do Doutor Borges

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Na manhã de 31 de janeiro de 1914, no Palácio do Governo, quando Borges de Medeiros festejava o primeiro aniversário de seu terceiro período de gestão, recebe ele um grupo de correligionários, entre os quais se encontra o deputado estadual e diretor do Banco da Província Emílio Guylain; José Montaury, intendente de Porto Alegre; Octávio Rocha, deputado federal e Manoel Itaqui, professor da Faculdade de Arquitetura, que vinham entregar as chaves de um palacete, recém- construído para ele na Rua Duque de Caxias (hoje, nº 1.1.95), situado nas vizinhanças do imóvel onde morou Júlio de Castilhos. Guylain, representando o grupo, é o porta-voz dos admiradores do Chefe do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) e justifica a iniciativa “de absoluta boa vontade e sem sacrifício pessoal” dos amigos pelo desprendimento e abnegação na vida pública, “abandonando sempre seus interesses pessoais e os proventos de uma profissão que começou a exercer com notável competência”; e que a oferta não é recente, mas remontava a 1910 quando o terreno fora adquirido, época em que o homenageado não exercia qualquer função pública, além do comando partidário, não tendo seu nome cogitado, ali, para substituir Carlos Barbosa, havendo, pois, mera coincidência com o fim da edificação e o mandato em curso. Insiste Guylain que o presente não é para o Presidente do Estado, pois para ele nunca será lícito receber semelhante oferta, por seu caráter e escrúpulos, mas sim como gratidão ao líder partidário. Borges aceita a doação como “prova da generosidade de seus amigos, sentindo-se pequeno ante a munificência da oferta, quer encarada pelo lado material, que pelo lado moral”, impondo, contudo, a restrição de ser apenas usufrutuário, ficando a nua propriedade com os doadores. Afinal, Borges não é imitido na propriedade do prédio, que é transferido para o domínio de sua esposa, Dona Carlinda Borges de Medeiros, com as cláusulas na incomunicabilidade e inalienabilidade; e, em caso do falecimento desta antes do marido, a propriedade seria transmitida para suas sobrinhas Nair Godoy de Medeiros e Dejanira Medeiros Saldanha (filha de criação do casal), casada com o Dr. Sinval Saldanha, conforme vontade manifesta aos doutores Montaury e Octávio Rocha, por ocasião da escritura definitiva em setembro de 1924. Borges teve os direitos políticos cassados, em razão da derrota da Revolução Constitucionalista, sendo confinado na Ilha Rasa, litoral do Rio de Janeiro e depois transferido para Pernambuco, onde escreveria sua tese sobre “O Poder Moderador na República Presidencial”, sendo anistiado em 1934, quando é eleito deputado à Assembleia Constituinte. Sinval Saldanha, que exercera a Secretaria do Interior, junto com a esposa acompanhar o Doutor Borges durante sua prisão no Rio de Janeiro; depois como Oficial do Registro de Imóveis, sedia o cartório na casa referida, que, por testamento seria legada ao casal morador. Borges de Medeiros nunca mais residiu no Palácio do Governo; e os que o conheceram ainda lembram encontrar, caminhando pela Rua Duque, o minguado cidadão que dominou o Estado por tantas décadas, mas que levava uma existência franciscana.

Fonte: “A Casa do Chefe”, artigo de Miguel Frederico do Espírito Santo, em “Do manuscrito ao registro eletrônico. 150 anos do Registro de Imóveis de Porto Alegre”, 2015.

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