Nas pegadas de Paulo

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“Então, os soldados decidiram matar os prisioneiros, para evitar que alguns deles escapassem a nado. Mas o oficial romano querendo salvar Paulo, não aceitou a ideia. Mandou aos que sabiam nadar que saltassem primeiro e alcançassem a terra. Depois mandou que os outros fossem atrás, agarrados em pranchas ou em qualquer pedaço do navio. Assim todos chegaram à terra, sãos e salvos. Estando já a salvo, soubemos que a ilha se chamava Malta (Atos, 27, 42-44; 28, 1)”.

Malta é parte de um arquipélago que fica no centro do Mediterrâneo.

Seus primitivos habitantes foram sicilianos, isso na Idade da Pedra. Atraídos por seus portos naturais, por volta de 800 a.C.  chegam os fenícios que ali estabelecem base comercial; depois vem a invasão romana e ao redor do ano 836, desembarcam os árabes que cercam com um fosso o lugar hoje conhecido como Medina, constroem templos e prédios, disseminam sua cultura e costumes; todavia, aproveitando-se de cisma entre os muçulmanos o conde Roger de Altavilla estabelece o domínio normando, libertando os cristãos e os escravos; segue retomada pelos sicilianos; e já sob o reinado de Carlos I da Espanha, a ilha é entregue aos Cavalheiros de São João que, derrotados e expulsos da Terra Santa, moviam-se durante anos pelas cercanias depois das Cruzadas; dita ordem era integrada por membros de diversas nacionalidades e, em 1547, ali sofrem o assédio do exercito otomano, seguindo-se fase de progresso com a fundação de Valleta por Jean de La Vallete, nobre templário. Em 1798 Napoleão conquista Malta, mas os britânicos a recuperam e ficam com a ilha pelo Tratado de Paris (1814); valoriza-se a posição estratégica na Guerra da Crimeia e nas duas Guerras Mundiais, sendo duramente atacada pelos nazistas na última. Obtém a Independência em 1964, embora ainda integrada à Grã- Bretanha, retirando-se os ingleses em 1974. Em 2004, Malta tem sua autonomia reconhecida pela Comunidade Europeia. “Perto deste lugar ficava a propriedade do Chefe da ilha, que se chamava Públio. Ele nos recebeu com gentileza e nos hospedou por três dias. O pai dele estava com febre e disenteria. Paulo foi visita-lo, rezou, impôs as mãos sobre ele e o curou. Depois disso, os doentes da ilha começaram a ir ao encontro de Paulo e eram curados. Demonstraram, então, muitos sinais de estima e, quando estávamos de partida, levaram para o navio tudo o que precisávamos (Atos, 28, 7-10).” Paulo (antes Saulo), cego pela luz na estrada de Damasco, assumira a evangelização em Atenas, Corinto, Éfeso, discutira com provocadores e resolvera continuar a missão na Macedônia e Chipre, acabando por ser detido ao pregar na sinagoga, sendo acusado de “trazer gregos para dentro do templo, profanando este Santo Lugar”. Acusado pelo sinédrio, Paulo escapou da punição por ser cidadão romano, e foi mandado pelo rei Agripa para ser julgado em Roma, junto com outros presos. A viagem durou vários dias, enfrentando a fúria do mar; quando naufragou, todos abandonaram o navio, e com poucos alimentos e água, lograram nadar até as margens de Malta. Eram os anos 60 d. C. Paulo permaneceu na ilha por três meses, disseminando a semente do cristianismo, operando curas; e Públio, seu hospedeiro, também convertido, foi o primeiro bispo do lugar; e onde estava a casa de Públio, agora em Rabat, ergue-se a Catedral de São Paulo cuja entrada lateral abriga uma gruta ou caverna onde vivera o corajoso missionário da religião, cujas pedras, dizem, tem poderes miraculosos. Em Malta destacam-se as cidades de Medina, Rabat e Valleta. Rabat registra nítido diálogo entre as civilizações bizantina e romana, especialmente em seus templos e prédios residenciais, repetindo-se o que se vê em Sevilha ou em Cartagena: igrejas católicas edificadas sobre mesquitas ou vice-versa, onde se conservam traços originais em respeito às sucessões acontecidas. Encantam especialmente as moradias com suas janelas salientes e varandas embelezadas de flores; as habitações quase sempre com um nicho proeminente e a imagem do santo protetor da família; a praça central rodeada de esculturas de madeira representando apóstolos e bem-aventurados que se distribuem por esquinas e calçadas como guardiães dos propósitos; e que, embora em ruas movimentadas, não sofrem quaisquer agravo ou desrespeito; não escapam de visita obrigatória, nos arredores da praça, as catacumbas, verdadeiros labirintos subterrâneos, escuros, onde se inumavam os falecidos judeus, romanos e levantinos. Medina, tida hoje como a Cidade Antiga, mantém a fisionomia árabe, é também chamada de Cidade Abandonada, pelo desamparo consciente de suas casas, parecendo em alguns pontos uma zona de esquecimento, ou monumento histórico que silencia desabrigo e sinaliza com importante memória de tempos difíceis, mas heroicos. Ali se acham lojas de artesania, joias, pratas, edifícios da administração, também um Museu da Aviação e estádio. Já Valleta, capital em lugar de Medina, se destaca por seu aspecto cosmopolita, uma larga avenida central que desemboca no mar; e lá se acham as lojas de grife, restaurantes ao ar livre, cafés e imóveis de moderna arquitetura como a Biblioteca, o Palácio da Justiça, o Museu de Belas Artes, a Catedral de São João e um moderno anfiteatro. “Depois de três meses, embarcamos num navio alexandrino, que passara o inverno na ilha”, conta Lucas, o médico que acompanhava Paulo, passando por Siracusa, Régio, Puteóli, sempre encontrando irmãos que se alegravam com a presença deles. “Quando entramos em Roma, Paulo obteve permissão para morar em casa particular, sob a vigilância de um soldado”- ou “custódia militar”, pois tinha o braço direito vinculado por uma corrente ao braço esquerdo de seu vigilante -, residido dois anos numa casa alugada, vivendo de seu trabalho. “Recebia a todos que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda a coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus Cristo. (Atos, 28, 30-31).” Por isso em breve seria martirizado.

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