O brasileiro Carlos Saldanha recebe o troféu Eduardo Abelin.

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Gramado - RS 18/08/2018 - 46º Festival de Cinema de Gramado - Coletiva de imprensa homenageado Carlos Saldanha Troféu Eduardo Abelin - Foto: Edison Vara / Pressphoto

O brasileiro Carlos Saldanha recebe o troféu Eduardo Abelin.

Acostumado com a escala grandiosa de tudo o que envolve Hollywood – enormes sucessos de bilheteria, cifras de arrecadação altíssimas, superproduções, prazos e pressões, e bajulação correspondente – o homenageado com o troféu Eduardo Abelin no 46º Festival de Cinema de Gramado, Carlos Saldanha, passou tarde e noite de sábado (18), reafirmando a singularidade de receber um prêmio em seu país natal. “Ah, que coisa boa isso aqui”, exclamou ao chegar ao púlpito. “Fiz minha carreira praticamente lá fora, então ganhar um prêmio no Brasil tem um gostinho muito especial”, agradeceu, no palco do Palácio dos Festivais.

Ao longo da entrevista coletiva que concedeu ainda durante a tarde, Saldanha deixou explícito o desejo constante de reforçar os laços com o Brasil. Vivendo em Nova Iorque há 25 anos (ele foi para passar três meses, estendeu o prazo para dois anos e logo foi contratado pelo Blue Sky Studios), está constantemente pensando projetos que o aproximem da terra natal. A primeira brecha veio na esteira do sucesso de “A Era do Gelo” (2002), que codirigiu ao lado de Chris Wedge.

Aproveitando o bom momento, propôs um projeto com a cara do Brasil para o estúdio Fox. “Eu disse: no Brasil tem música, cor, tudo o que é preciso para uma boa animação”, lembra. Era o embrião do sucesso internacional “Rio” (2011), que, entretanto, ainda teve que esperar antes de sair do papel. “Eles toparam, mas disseram que antes precisaria fazer A Era do Gelo 2 e 3”, revelou.

Assim foi, e com as sequências do filme original, Saldanha ganhou ainda mais prestígio, pois assumiu a condução completa do projeto, que foi sucesso internacional de bilheteria, arrecadando quase um bilhão de dólares ao redor do mundo.

Chegou, então, a vez de “Rio”, e ele fez questão de ambientar toda a equipe no Brasil para contar a história de Blue, um pássaro nativo que deixou o país muito cedo e precisa voltar. “Fizemos todo o percurso do Blue juntos, saímos dos Estados Unidos e viemos”, recorda. Na capital fluminense, onde Saldanha nasceu, a equipe se aventurou da mesma forma que Blue, na telona. “Fizemos aula de samba para conseguir animar os personagens, saltamos de asa delta – mesmo contra a vontade do estúdio, que não queria se encarregar do seguro”, revela.

Recentemente também decidiu se aventurar pela ficção live action (ou seja, com atores de carne e osso e não desenhos animados) em um projeto que, uma vez mais, mirou a pátria distante. “Cidades Invisíveis”, série de oito episódios feita para a Netflix tem como fundo temático o folclore brasileiro. “Estou muito feliz, pois é uma produção 100% brasileira, com roteiristas, atores, toda a equipe daqui”, celebra.

Ele também revela ter planos de produzir mais animação. “Sempre temos dois projetos andando juntos, para ver qual o que se confirma. No momento, estou trabalhando em uma história original própria e em uma sequência. Vamos ver qual será a vitoriosa”, provoca.

A cidade meio século depois

Na conversa com jornalistas realizada durante a tarde de sábado, no Museu do Festival, Carlos Saldanha revelou que conheceu não só Gramado, “mas todo o Rio Grande do Sul”. Quando era criança, morou durante dois anos em Alegrete, na fronteira com a Argentina. A cada viagem de volta para a cidade natal, a família escolhia o automóvel como veículo e traçava rotas diferentes para poder visitar todos os lugares possíveis. “Demorávamos três dias até chegar”, recorda.

Entre outras localidades, passou por Gramado, que tinha aspecto totalmente diferente meio século atrás. “Hoje está grande, desenvolvida, graças também a este festival de cinema maravilhoso e tradicional”, elogia.

Também foi a influência da família que o levou a decidir cursar informática na faculdade, embora gostasse de desenhar e tivesse inclinação para a carreira de belas artes. “Meu pai disse que isso tinha que ser hobby, não profissão. Mas eu gostei muito do curso, me empenhei mesmo”, prossegue.

E foi graças ao curso universitário que ele, anos mais tarde logrou uma vaga no Blue Sky Studios, depois de ter ido aos Estados Unidos fazer uma especialização de três meses em animação gráfica, que se transformou em mestrado e finalmente, em ocupação profissional. “Na minha aula havia muitos artistas talentosíssimos, mas naquela época o computador não era popular. Então quem sabia mexer um mouse tinha emprego certo”, relembra.

Entre suas referências iniciais, ele cita Hans Donner, que o fez ver que era possível unir arte à computação gráfica. Saldanha também se rasgou em elogios a Otto Guerra, animador do Rio Grande do Sul que recebeu o mesmo prêmio Eduardo Abelin no ano passado. “O Otto é ótimo”.

Em retribuição, o gaúcho preparou uma sequência com imagens de seus filmes projetada no telão do Palácio dos Festivais durante a homenagem à Saldanha. Mas o que “As cobras”, “Rocky e Hudson, os caubóis gays” “Wood & Stock” queriam, era emprego em Hollywood e pediam ao homenageado que intercedesse em seu favor – brincadeira levou o público do festival às gargalhadas, enchendo a plateia com o bom humor da animação. 46º Festival de Cinema de Gramado – Coletiva de imprensa homenageado Carlos Saldanha Troféu Eduardo Abelin – Foto: Edison Vara.

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