O CASAMENTO VIRTUAL

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Sheila residia no interior de São Paulo. Clóvis, operário, morava no Japão. Na internet ficam amigos e trocam mensagens. De simples conversas evoluem para amizade, e, por fim, para um relacionamento amoroso a distância, sem conhecer-se pessoalmente. A confiança mútua cresce e acham-se namorados. Certo dia, Gabriel, filho de Sheila, então com sete anos, retorna em prantos da escola, ofendido por não ter nome de pai na certidão de nascimento. Como se gostavam já, Sheila propõe casamento a Clóvis, isso modo de incluir genitor no registro. Clóvis aceira e celebram matrimônio por procuração no regime da comunhão parcial de bens. Clóvis reconhece Gabriel, e anos depois o casal também adota Lorena, filha biológica de Gabriel, todos sustentados por Clóvis que envia os recursos do Japão. Um programa de televisão, ciente do caso, leva Sheila ao encontro de Clóvis, o que acontece num templo budista. É a primeira vez depois de treze anos de contato internéticol. Voltam ao Brasil para que Clóvis, finalmente, abrace os filhos virtuais. Na época a união completava dezoito anos e treze de casamento. Em dito programa Clóvis se incomoda por tratarem a união como “casamento virtual”, pois o entende “verdadeiro casamento”, em que se ligam pelo coração (afet0) e não pelo corpo. Lorena e Gabriel contam que Clóvis é pai presente mais que outras figuras que tiveram na vida, como o avô.

A família assim constituída é um exemplo de “família eletrônica” ou “ifamily”.

São sabidos os casamentos e uniões estáveis em que a dupla mora separada. É situação moderna que ocorre em vicissitudes diversas como as relações entre pessoas separadas ou divorciadas; jovens que optam pela modalidade para manter autonomias; união de idosos; marido e mulher que exercem funções públicas e que foram designados para lugares distantes. Tais vínculos não se confundem com o “namoro qualificado”, eis que lá há nítida intenção de “viver como família em forte comunhão de afetos”.

É princípio constitucional a existência de uma “pluralidade de arranjos familiares”, pois muitos são os núcleos que se constroem na atualidade, como as famílias constitucionalizadas explícitas: casamento, união estável e união monoparental; famílias natural, extensa ou ampliada, denominações próprias do Estatuto da Criança e do Adolescente; famílias constitucionalizadas implícitas, como as homoafetivas ou homoparentais; paralelas ou simultâneas; reconstituídas, neoconfiguradas ou mosaico; famílias parentais ou anaparentais; famílias solitárias; famílias poliafetivas; além das famílias patriarcais, nucleares e eudemonista e, primitivamente, as famílias matrilineares ou patrilineares.

O febril progresso da comunicação e da tecnologia e sua influência nos costumes sociais, aliado ao uso intensivo de novas mídias digitais (computador, notebooks, celulares, smartphones, iphones), à maneira do que acontece no comércio eletrônico, admite-se o surgimento de células familiares que se ligam pela internet, interagindo e dialogando com se presentes. O que antes sobrevinha depois de demorada resposta a uma correspondência escrita obtém agora réplica imediata pela mensagem eletrônica ou na tela do celular. Se no passado a convivência era física e por meio do espaço doméstico ou público, agora esse contato opera-se on-line no espaço virtual com instantaneidade e eficiência.

Daí despontar nesta fase contemporânea outro arranjo familiar, ou “família virtual”, identificada pelos mesmos requisitos da família jurídica (publicidade, notoriedade, ostensibilidade, comunhão de vida, vontade e afetividade) e que, manejando os instrumentos da técnica emergente oportuniza a realização da felicidade.

O que é a busca em todo agrupamento afetivo.

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