Velório Assustador

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Ecléia, uma senhora simpática de inúmeras histórias narradas com extrema maestria e comicidade. Amiga de serviços de minha mulher. Faz-me rir inúmeras vezes, até só de lembrar-me. Uma narrativa em particular quero compartilhar com vocês, conta ela:

“A muitos anos, mais de 40, quando ainda morava no interior, bem no interior do nosso estado, numa região montanhosa, cujo nome já mudou varias vezes que nem lembro qual era o de então, fui ao velório de uma tia. Esta tia, irmã de minha mãe, era a parteira da localidade e não tinha quem não a conhecesse. Velório dos mais concorridos.        Pela tardinha, o sol já sumira por trás dos morros, segui por trilhas através da mata rumo ao velório. Mais ou menos hora e meia de caminhada ao som assustadores de búzios, saracuras e sei lá mais o que.                                                                                                                    Ao dobrar a curva do moro enxergo a pequena casa iluminada turvamente pelos candeeiros. A casa era muito antiga, sem pintura, com um grande avarandado cujo corrimões estavam quebrados e podres. A fumaça saindo da chaminé do fogão a lenha subia alto. Fazia muito frio e certamente o fogão auxiliava no aquecimento da casa.

Antes de chegar colhi um ramalhete de Hortência que coloquei na cabeceira do caixão.  A dor era grande, muitas pessoas chorando e outras tantas consolando.  Após prevês momentos junto ao caixão, ainda permanecia aberto, fui para a cozinha a busca de café e calor para aquecer-me. O trajeto havia sido gelado. Lá pelas tantas começa uma grande algazarra. Muitos gritos e correria. Pessoas atiravam-se desesperadamente rumo ao mato num grito só. Saltavam até pela janela. Com o tumulto a varanda não agüentou o peso de tantas pessoas e desandou num estalo só. Lá dentro os mais corajosos diziam: Mata ela. Ela tá via. Bate na cabeça. Cuidado ela vai pular. Teve até quem deu três disparos de revolver sem acertar o alvo. Outro gritou pega pela garganta e sufoca.   Tudo em vão. O povo nesta altura havia sumido. Foi ai que apareceu um valentão dizendo: “Deixa comigo”. Com facão em punho adentrou a sala do velório gritando agora te mato desgraçada. Após alguns instantes gritou, tá morta. Cortei no meio, a cabeça para um lado e o corpo para outro.

O alivio foi geral. Um grande silêncio se fez. Aos poucos retornavam para a casa. Alguns tentando consertar provisoriamente a varanda e outros admirando a cobra recém morta. Na verdade era uma pequena cobra verde que saiu do ramalhete de flores colocadas por mim na cabeceira do caixão.

Ufa que sufoco!!!!”.

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